Guitarras a serviço da eletrônica
B*Scene - 23/out/2003
Bárbara Lopes
Nota: Essa matéria é da época em que o Gerador Zero era uma banda com mais integrantes - MMA, Sandro Rib e Mary Fê.
O Gerador Zero, banda liderada por Fabio FZero, faz a música mais moderna de uma forma quase antiquada, com guitarras, baixo e bateria convivendo em harmonia com os computadores e samplers. Mais do que ser mera curiosidade, esse modelo faz com que o drum’n'bass, breakbeat e quetais da banda ganhe energia, principalmente ao vivo - como poderá ser comprovado por quem assistir ao show do dia 1 de novembro no palco Lab do TIM Festival.
Apostando na independência, eles mesmos produziram e gravaram seu disco de estréia (depois do CD-R lançado em 1999 pelo extinto selo Hipocampo), enviaram para a fábrica apenas para prensar. A distribuição é feita pela também independente Tratore. Uma opção nem sempre fácil. Na entrevista a seguir, Fabio FZero comenta as limitações da indústria, o drum’n'bossa tipo exportação e faz uma previsão: “Nos próximos cinco anos é a vez do vídeo estar ao alcance de quem se interessar”.
No festival Eletronika, você participou de um debate sobre música eletrônica e identidade nacional. E agora, o drum’n'bass misturado à bossa-nova virou produto de exportação e de consumo em massa no país. Você acha que esse é o caminho? No momento este é o caminho para se ganhar dinheiro, ao que parece. :-) É a música popular brasileira de exportação da vez. O que está acontecendo agora é o mesmo que aconteceu com a bossa-nova décadas atrás. Não vejo nada de mal nisso, mas também não dá pra dizer que esse é o caminho - aliás, caminho para quê? Tudo depende do objetivo. Certamente esse não é o caminho para um “novo som” já que essa mistura já está aí há pelo menos seis anos (nós mesmos já fizemos uma música nessa linha em 1997 - “Turboelis”).
Mesmo sem usar explicitamente elementos brasileiros, a música do Gerador Zero tem a cara do Rio de Janeiro. Você também identifica isso? Sim, sem dúvida. Mas é natural, acho. Tudo o que você vive aparece de alguma forma quando se trata de um trabalho artístico.
Vocês escolheram o caminho mais difícil, optando por shows, com instrumentos mais convencionais (guitarra, baixo, bateria), e não live PAs. Por que essa escolha? Basicamente porque não somos DJs, não pensamos como DJs. Não conseguimos ficar ouvindo o mesmo estilo sem parar, nem mesmo dançar a mesma música por meia-hora. A eletrônica é só uma ferramenta, uma maneira de fazer música. Não vamos necessariamente fazer techno ou drum’n'bass ou electro pelo simples fato de usamos computadores, samplers e coisas do tipo. Claro que os instrumentos que você usa acabam tendo influência na maneira de pensar a música, mas não impõem um estilo, essa decisão é só sua. O nosso interesse é usar o que temos até o limite para fazer músicas que realmente gostamos, como banda.
O Gerador Zero deixa suas músicas livres para trocas. Ao mesmo tempo, uma de suas músicas favoritas do público, “Turboelis”, ficou de fora do disco por causa das limitações dos direitos autorais. Como conciliar a liberdade de criação e circulação da música com a devida recompensa financeira ao artista? Não existe ainda uma resposta completa para isso, mas antes de mais nada é importante ter respeito pelo trabalho dos outros. Não colocamos “Turboelis” no disco porque respeitamos o direito dos autores originais. Não conseguimos contatá-los diretamente e achamos melhor não arriscar, não seria certo. Da mesma maneira, respeitamos o direito do público de fazer MP3 e distribuí-las na internet. É bom, é uma forma de divulgação, sem falar que é importante que as pessoas saibam o que estão comprando. Foi dessa forma que o g0 ficou conhecido (não fosse a internet nós não seríamos nada), e estamos tendo retorno com isso sem gravadora ou jabá.
A parte da recompensa financeira é complicada ainda, mas CDs não enchem os bolsos dos artistas - e a tendência é que isso piore. Estão aparecendo algumas maneiras interessantes de resolver esse problema. Já é comum no exterior ver gente usando o PayPal para receber dinheiro diretamente dos fãs. Existindo um canal direto de recompensa financeira entre o autor e o público, grande parte do problema já está resolvido. Você dissocia a grana da venda de um produto - ou não, mas não precisa empacotar a sua música em um disquinho prateado que impõe vários custos de fabricação e distribuição. Toda a relação de artistas com público e grana está para mudar, mas para que funcione é imprescindível que os donos da cocada preta - empresários, gravadoras e mesmo instituições financeiras - abandonem idéias ultrapassadas e abracem sem pudor novas maneiras de se fazer negócio. É um processo lento, mas inevitável.
Como funciona a parceria com o Apavoramento e como casar o som com imagens? Nós tocamos só uma vez com o Apavoramento em Belo Horizonte, mas foi uma experiência interessante. Apesar dos dois projetos serem do Rio temos referências musicais bem diferentes - eles têm uma visão mais centrada nos DJs e na cultura hip hop enquanto nós carregamos nas guitarras - mas tudo funciona bem nos encontros. Já a coisa de sons e imagens é algo que nem precisa de muito esforço. A MTV está aí há mais de uma década, as pessoas já estão acostumadas a pensar na música como parte de uma experiência audiovisual. O boom dos VJs é só mais uma consequência da evolução tecnológica. Se nos últimos dez anos o áudio profissional ficou ao alcance de qualquer um que se interessasse, nos próximos cinco (ou talvez três?) é a vez do vídeo.
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