Eletrônico sem preconceitos
Trama Virtual - 08/ago/2004
Flávio Seixlack
Um projeto que começou em 1995, sem muito compromisso, com o nome de Subwoofer Conspiration. Alguns anos depois, já com um número considerável de fãs, o nome foi alterado para Gerador Zero. O projeto, que participou do Tim Festival de 2003, é hoje um dos principais no meio independente, com um disco oficial e um EP, recentemente gravado. O som é eletrônico sem preconceitos, passeando pelo rock e pelo pop. Fábio “FZero”, mentor do Gerador Zero, falou com a TramaVirtual.
Como e quando começou o Gerador Zero? De onde surgiram as idéias, etc? O g0 começou bem antes de ter esse nome, na verdade. Eu sempre me interessei por computadores e música, e por volta de 1993 comecei a brincar com isso usando programas conhecidos como trackers. Nessa época os computadores mais usados eram os 486 e qualquer programa sério voltado para multimídia só rodava em DOS - nada de mouse ou interface gráfica!
Um tracker é basicamente um sampler com sequencer (isso bem antes de sequer pensarem e inventar plugins e instrumentos virtuais), então era possível criar músicas usando qualquer tipo de som, sem depender da tosqueira que eram os barulhinhos gerados pelos sintetizadores das placas de som da época. Além disso, as músicas vinham com a programação e os sons usados num mesmo “pacote”, tornando possível usar os samples de qualquer música feita num tracker nas suas próprias produções.
No começo eu lançava as músicas usando o nome Subwoofer Conspiration e criava algumas coisas junto com o KCL (Kleber Café), o cara que me mostrou como funcionavam os trackers. Isso tudo foi antes da popularização da internet no Brasil, então “lançar uma música” era basicamente copiar os arquivos em disquetes (gravadores de CD ainda eram muito caros), gravar fitas e mostrar para os amigos.
Quando finalmente consegui um modem a internet no Brasil estava engatinhando. Comecei a trocar arquivos com vários grupos de trackers espalhados pelo mundo - o que foi um grande choque por si só! - e conheci o pessoal do noisemusic.org, que era formado principalmente por canadenses. Em outras palavras, eu trocava arquivos de músicas open-source através do IRC, e várias pessoas remixavam e recriavam músicas usando samples dos outros em nível global. Isso em 1994, antes de existir mp3, Napster, Creative Commons e coisas do tipo.
Mais na frente, em 1998, eu participei do evento multimídia Blindfontes (do designer Marcelo Rosauro) onde toquei pela primeira vez um computador ao vivo usando Impulse Tracker. Logo depois do show começaram a perguntar se eu tinha um CD com as músicas para vender. Foi aí que a coisa começou a ficar séria e o Gerador Zero nasceu, com o primeiro CD-R demo lançado em 1999 pelo selo Hipocampo.
Como você descreveria o som do Gerador Zero? É música eletrônica - porque é feita com computadores - mas eu não ligo a mínima para estilos específicos. Tem alguma coisa de drum’n'bass, às vezes perece rock, cheira um pouco a electro com uns lances meio parecidos com Orbital e nunca é exatamente nenhuma dessas coisas. Eu acho legal, mas sou suspeito.
No fundo, eu não faço a mínima idéia de como descrever o som do Gerador Zero. É música eletrônica brasileira, e tirando isso fica difícil ser mais específico.
Quais suas principais influências? Orbital, Chemical Brothers, Aphex Twin, Apollo 440, Chico Science, indie rock em geral, Kraftwerk, MPB, jazz… Tudo o que você ouve acaba influenciando um pouco.
Como foi a participação no Tim Festival? Foi absurdo! Tocar no Free Jazz (agora Tim Festival) era algo que eu sempre pensei ser um sonho distante, difícil pacas, e acabou rolando. O show foi bastante curto por estarmos dividindo o palco com o Apavoramento - inclusive nem deu para fazer a jam-session final que estava preparada. Mesmo assim reação do público foi ótima, deu até pra ir na frente do palco e agitar a galera. Me senti a própria Ivete Sangalo.
O g0 tem disco? demo? Sim, tem um disco nas lojas (Gerador Zero, de 2002, distribuído pela Tratore) e um EP lançado há pouco tempo na web (#!/bin/bash). Os dois estão disponíveis no Trama Virtual.
Qual o motivo do nome? Eu infelizmente tive que servir ao exército em 1995. Uns amigos começaram a me chamar de Recruta Zero e daí acabou saindo o “Fabio FZero”. O nome do projeto ia ser “Gerador” ou “Reator”, algo do tipo. Um amigo deu a idéia de colocar o “zero” depois e acabou soando bem. Eu realmente queria colocar um nome em português - todos os projetos eletrônicos da época tinham nomes em inglês.
Quem faz parte do g0? O Gerador Zero em si é um projeto meu, mas já houve várias formações diferentes tocando ao vivo e participando das composições. Dependendo da época, o g0 poderia ter 2, 3, até 5 integrantes. Durante algum tempo eu tentei encarar a coisa como uma banda, principalmente com a última formação (com Sandro Rib e Mary Fê nas guitarras), mas é muito difícil mudar o jeito de trabalhar depois de anos fazendo quase tudo sozinho. Transformar algo pessoal em algo coletivo pode ser bom, mas depende do quanto você e os outros envolvidos estão dispostos a ceder. No nosso caso foi melhor voltar ao início: o Gerador Zero é um projeto, não uma banda. Estamos todos mais satisfeitos desse jeito.
Atualmente estou trabalhando com um novo baixista (Haroldinho, da dupla Elesbão e Haroldinho) e montando um show numa linha mais experimental para o projeto “Isto é Música!?” com um harpista (Marco “Paco” Antônio, da Orquestra Brasileira de Harpas). Esse tipo de liberdade só é possível num formato de projeto. (Nota: Acabou que a parceria com o Haroldinho nunca saiu do papel, o que é uma pena. Quem sabe numa outra ocasião?)
Como são os shows da banda? Como funciona todo o esquema? Depende do show. Alguns são live PAs apenas comigo e o VJ Sandro Menezes e outros têm mais gente no palco - tudo depende do lugar e da disponibilidade do pessoal que toca com o g0. De qualquer forma, a parte letrônica do show é sempre feita de forma a permitir o improviso, mesmo nos live PAs solo. A idéia é bem simples: se não houver a possibilidade de mudar tudo na hora (e, portanto, de errar horrivelmente), não tem graça tocar ao vivo: é melhor ser DJ. O resultado disso é que nunca houve dois shows do g0 exatamente iguais. Essa é a idéia.
Fale sobre o futuro do g0. Em termos de som, a tendência é que o g0 fique cada vez mais difícil de definir. Isso vai realmente me dar uma boa dor de cabeça toda vez que eu tiver que dar uma entrevista - mas ei, isso não chega a ser um grande problema e me dá margem a inventar respostas pseudo-engraçadinhas como esta.
No geral, a idéia é continuar fazendo experiências com maneiras diferentes de distribuir música - o último disco (#!/bin/bash) foi distribuído com todos os samples das músicas para que outros pudessem remixá-las, exatamente como no tempo dos trackers - e investir na divulgação do g0 no exterior.
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