ALERTA nº 44 - Gerador Zero
Diário do Povo - Campinas/SP - 24/out/1999
Alexandre Matias
Fábio Soares não gostava do exército o tempo que serviu. Foi inevitável seus amigos começarem a chamá-lo de Recruta Zero. Logo, adotava o Zero como apelido(acrescentando um “F” ao início do nome) e o número passou a acompanhá-lo. Tanto que quando estava escolhendo um nome para batizar seu projeto eletrônico, passou de Hypergenerator para apenas Gerador. Questão de tempo se tornar o Gerador Zero.
Fzero começou a fazer música quando percebeu que era possível fazer músicas em computadores - isso no tempo do disquetão 5 1/2 polegadas. Apreciador de gêneros tão diferentes quanto o progressivo, samba das antigas e o gótico, ele compôs sua primeira peça musical pra valer quando um amigo pediu uma trilha sonora para um CD-ROM. Entusiasmado com os elogios que recebeu após uma apresentação no lançamento do tal disco multimídia, resolveu arregaçar as mangas e ir trabalhar. O resultado é o impressionante Gerador Zero (Hipocampo), um dos melhores discos de música eletrônica feitos no Brasil. Passa longe das oitentices da Cri du Chat que estereotiparam o gênero no Brasil e aponta pro futuro, ao mesmo tempo que fala com os termos (e timbres) do presente.
O álbum começa com a violenta colisão de big beat com drum’n'bass que é 404 Not Found. Mesmo com a passagem macia no meio da música, a porrada digital derruba o ouvinte como um turbilhão de som. Uma agulha raspa o vinil e entramos em Dia de Cão, que aproveita a fusão da primeira faixa (e os andamentos periódicos do trance) para outro espasmo eletrônico.
Em seqüência, entra a bucólica Bailarina de Plástico, que usa uma caixinha de música como desculpa para um ambient/trip hop de respeito. TurboElis, um dos melhores momentos do disco, usa trechos de Águas de Março e Triste (de Tom Jobim e com Elis Regina) para criar o groove psicótico que dá origem a esse furacão jungle. Zero poderia ser um número do Roni Size, tranqüilo. Noiserator faz barulho só com beats, um absurdo. Momento Quase Acústico joga camadas de violão no mix, como se o Duofel fossem os Chemical Brothers. E o disco termina com a estilosa Neuronada.
Mesmo que você não goste de música eletrônica, o disco vale a compra. É bem feito, bem produzido e permeado não apenas pela modernidade, como por muita criatividade e estilo.
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