O g0 não era uma banda? Não tinha mais uma galera tocando?
Sim. A maior parte das pessoas lembra da formação que participou do Tim Festival de 2003: eu nos eletrônicos, Mary Fê e Sandro Rib nas guitarras. Mas houve outras formações antes disso.
Começando pelo início: o Gerador Zero era um projeto solo. Na verdade nem tinha como ser muito diferente, já que pouquíssimas pessoas faziam música eletrônica naquela época. Todas as músicas eram feitas no computador e não havia um show (ou live PA, como queiram - esse termo nem tinha sido inventado). Os computadores com poder de fogo o bastante para trabalhar com som não eram exatamente portáteis e não aguentavam o tranco de serem usados no palco.
Mesmo assim eu tentava. Cheguei a fazer essa experiência algumas vezes com a Trova Zen (antiga banda da Mary Fê) e o Amp Lee, um projeto de curta duração com Mary, eu e Löis Lancaster do Zumbi do Mato. De qualquer forma, não tinha achado ainda um jeito de transportar as músicas do g0 para um formato que ficasse interessante ao vivo. As bases eram bem mais complicadas - o que exigia um poder de processamento que os computadores simplesmente não tinham - e eu queria ter a liberdade poder mudar as músicas na hora. Nunca me interessei pela idéia de apertar play num CD ou MD e fingir estar fazendo alguma coisa.
Nessa época (1999) eu trabalhava numa empresa de internet (ah, os tempos pré-bolha.com!) e conheci dois metaleiros que curtiam música eletrônica - uma combinação bem rara naquele tempo. Surgia a primeira formação de palco: eu com um Akai MPC2000 recém-comprado, Mauricio MMA no baixo e Sandro Rib na guitarra. A estréia foi no primeiro festival London Burning (é, do Luciano Vianna, aquele que só faz festa anos 80 agora) num casarão que já tinha sido um puteiro em Copacabana. Clássico.
Algum tempo depois, conhecemos o DJ Lucio K e fizemos durante algum tempo uma mistura de DJing com instrumentos e bases tocadas ao vivo, o live PA K-Zero. Esse formato acabou se mostrando limitado para nós. Depois de algum tempo o set ficava repetitivo e não havia tanto espaço para improviso quanto gostaríamos. Hang the DJ, move on.
Na formação seguinte, o g0 ganhou o reforço de Maurice Yudanaz (dos Ouvintes) nas bases eletrônicas. Algum tempo depois, Mary Fê entrou. Essa formação durou bastante tempo e tocamos várias vezes em diversas festas, raves (bons tempos sem evangélicos e bundões no governo do Rio…) e, principalmente, na Bunker - que na época era O lugar para se estar.
Depois disso o g0 deu uma enxugada. Maurice saiu para cuidar dos Ouvintes e duas outras bandas da qual fazia parte na época. Alguns meses depois, foi a vez de MMA sair por conta de problemas pessoais. Chegamos à formação do Tim Festival e da infame/famosa matéria no Jornal Hoje.
Você deve estar se perguntando: “mas o que aconteceu para o g0 voltar a ser um projeto solo?” Resumindo em poucas palavras, eu não soube me adaptar a uma situação nova.
Nós começamos a compôr músicas novas em grupo e o g0 estava começando a funcionar como uma banda de fato. As composições estavam saindo realmente muito boas e existia um entrosamento fantástico. O Samba do Aeroporto foi feito nessa época, e soa completamente diferente de todo o resto que o g0 tinha feito até aquele momento. Estávamos conhecendo o lado bom de funcionar como banda.
O problema é que existe um lado ruim: cada um quer fazer do seu jeito. Somos três pessoas com personalidade forte e eu não estava gostando da idéia de dividir as decisões sobre a identidade e o futuro do g0 com outras pessoas - não depois de passar quase 10 anos fazendo tudo sozinho. Eu admito sem a menor vergonha que foi sim um problema de egos - ou, mais especificamente, ego, o meu. Este é provavelmente o primeiro site de uma banda que ousa falar mal de si própria, aliás.
Eu cheguei a propôr que começássemos uma banda nova do zero, ou que eu criasse algo novo para mim e seguíssemos com o g0 no novo esquema, mas o desgaste já tinha sido grande demais e a banda rachou. Sandro e Mary chegaram a trabalhar algum tempo juntos num projeto chamado Nanorchestra, mas depois cada um seguiu seu caminho.
Pensei em terminar com tudo várias vezes, e por muito tempo as coisas realmente seguiram por inércia. Então simplesmente vi que não conseguia deixar de fazer música.
Certas coisas não são feitas por sucesso ou dinheiro. Você as faz porque não sabe como não fazer. É por isso que o Gerador Zero ainda existe.
