O que está na cara e ninguém quer ver
Este post é uma resposta a um texto publicado pelo Jamari França em seu blog n’O Globo, mas na verdade acabou servindo como pretexto para organizar várias idéias que eu nunca escrevi de forma organizada. É sobre distribuição digital de conteúdo e Radiohead, portanto se você não aguenta mais ler sobre o assunto, recomendo que você desligue o computador e vá dar uma volta. ;-)
Existem alguns fatos incontornáveis quando se fala em distribuição de conteúdo atualmente. O primeiro é que não é mais possível lucrar em cima de absolutamente todas as cópias existentes de qualquer bem cultural – a não ser a experiência ao vivo. A culpa disso é, em grande parte, das gravadoras que não entraram no mundo da distribuição digital logo no início e perderam o bonde da história. O motivo é simples: depois que as pesoas se acostumam a não ter restrições, não há mais volta.
Qual é a situação atual num lançamento convencional? Lança-se um CD, ele é copiado em MP3 pela internet sem custos e vende-se uma fração das unidades que eram vendidas antes. O preço é mais caro para compensar as vendas baixas, o que faz com que ainda menos pessoas comprem CDs. As gravadoras reclamam, fazem escândalo, esperneiam e – óbvio – nada muda. Nem elas.
Do preço total do CD, 90% ficam para lojistas, distribuidores e a gravadora. Em geral, os artistas ficam com, no máximo, 10%. Mesmo nos tempos áureos esses 10%, por mais polpudos que fossem, nunca foram a principal fonte de renda dos artistas: execução pública, licenciamentos (uso em filmes, programas de TV, anúncios etc.) e shows sempre deram mais dinheiro. Mas aí entra um fato que poca gente fora do ramo sabe: quando um artista faz um contrato com uma gravadora, ele cede totalmente os direitos sobre as músicas para a empresa, efetivamente deixando de ser dono do seu próprio trabalho.* Os contratos estipulam que as gravadoras administram os direitos sobre as composições e fonogramas, muitas vezes em caráter vitalício, repassando uma pequena percentagem para os artistas como pagamento.
Legaaal, não? Mas embora isso faça parte do problema, essa é uma outra história. O que importa aqui é o modelo de distribuição e venda de música, em CD e nas lojas de downloads. Por quê não está dando mais certo?
No caso do CD, o meio físico se tornou desnecessário e caro. Embora haja uma diferença na qualidade de som de um CD para uma MP3, o consumidor já provou que não liga muito – sem falar que é absurdamente mais prático carregar toda a sua coleção de música no bolso ao invés de escolher qual disco você quer ouvir hoje. E capa? E ficha técnica? A maioria dos downloads de álbuns inteiros incluem imagens escaneadas de qualidade bastante razoável do material gráfico.
Já os downloads legalizados não vingam no Brasil por vários motivos, principalmente preços altos, arquivos com restrições de cópia e falta de praticidade para pagar. Pense bem: se eu posso ter um arquivo de excelente qualidade (320kbps é a norma nos torrents), sem restrições e de graça, por quê eu gastaria R$ 1,99 numa única faixa em WMA que eu não posso copiar para onde quiser? É um contra-senso! E as lojas em geral requerem cartões de crédito, o que não é prático quando você pretende comprar apenas uma ou duas músicas.**
E, sim, R$ 1,99 por faixa é muito caro. Você pode ter feito uma conta rápida de uma média de 12 músicas por CD (quase R$ 24, um preço razoável), mas lembre-se que a gravadora não teve que arcar com custos de fabricação e distribuição de CDs. Custos mais baixos deveriam significar um produto mais barato, certo? E você sempre pode ripar um CD para MP3 e copiar para onde quiser, o que não é verdade com arquivos WMA. Ou seja, paga-se muito por um produto inferior. Antes que eu me esqueça: em geral as lojas de download não incluem sequer uma imagem da capa do álbum. Vergonhoso.
Mas então, qual é a solução para isso tudo?
Antes de mais nada, é preciso encarar a realidade: na situação atual, é impossível receber dinheiro por 100% das cópias do conteúdo. É verdade que todo o modelo capitalista se baseia nisso, e é também por essa razão que todos os executivos das gravadoras, com seus MBAs emoldurados em seu escritórios, não conseguem achar uma saída. Eles simplesmente não foram treinados para isso. Eles acham que uma economia de mercado que leva em conta um percentual de cópias que não geram lucro é um absurdo completo, uma afronta aos acionistas.
Eu digo que estão todos errados.
O primeiro grande erro é obrigar o consumidor a pagar. Não entenda mal, ele deve pagar sim, mas porque gosta do produto (lembre-se que sempre há alternativa de baixar de graça). No fim, é disso que o artista vive, de pessoas que gostam do que ele faz e acham que ele merece uma compensação. Fãs. É aqui que o Radiohead acertou em cheio.
Mas a solução deles não é a única. Vender downloads não é uma idéia ruim, mas precisa de alguns ajustes para funcionar:
As músicas devem ser realmente baratas. Algo em torno de R$ 0,50 ou até menos. Com preços lá embaixo, as pessoas comprariam as músicas mesmo tendo a possibilidade de baixá-las de graça, nem que seja para garantir a procedência e qualidade dos arquivos.
Falando em arquivos: eles devem ser absolutamente sem restrições contra cópia, de preferência em formato MP3 mesmo – o padrão de fato. Sim, as pessoas poderão copiar os arquivos, mas com preços baixos o consumidor terá uma desculpa a menos.
Pagamento facilitado. Mesmo um modelo de assinaturas mensais poderia funcionar, contanto que os arquivos permaneçam sem restrições. Cartões pré-pagos também são uma idéia interessante e já existem experiências nesse sentido, ainda que limitadas.
Nesse momento, milhares estudantes de marketing fãs do Philip Kotler e executivos com gel no cabelo estão tendo uma síncope coletiva na frente de seus computadores. Leitores assíduos, apresento-lhes as pessoas para quem eu preciso explicar as coisas bem devagar. Eu sei que a maioria das pessoas sensatas já entenderam onde quero chegar, mas esse grupo em particular precisa de um pouco mais de atenção.
Vamos lá então, em parágrafos curtos, bem explicadinhos e com fonte maior.
Vocês podem argumentar que esse modelo vai dar prejuízo, mas eu tenho uma notícia para vocês:
Vocês já estão tendo prejuízo. MUITO prejuízo. E vai piorar.
Existem duas alternativas: continuar fazendo exatamente a mesma coisa (afinal está tudo dando certo pacas, né?) ou acordar para a vida e tentar outra estratégia. Pois então, essa é outra estratégia.
A idéia é incentivar um número muito, mas MUITO maior de downloads legalizados cobrando bem menos. Isso vai garantir que muito mais cópias do conteúdo gerem lucro.
Mesmo com uma percentagem de cópias sem retorno financeiro, a soma total das vendas será maior.
Não raciocine em termos de valor por cópia. Este sempre será inferior ao de hoje. Fora isso, o cálculo não faz sentido: não há custos de fabricação e distribuição que variem de acordo com a quantidade vendida no mundo digital.
Leve em conta apenas a soma total da receita de todas as vendas. Esse número será fatalmente superior aos números atuais.
Ficou claro agora? Ótimo. Estou aberto a propostas para diretoria estratégica. Entre em contato aqui. ;-)
Quanto ao Jamari: ele é um cara das antigas. Na época dele, o único jeito de se comprar música era em vinil e só era possível fazer cópias em fita para dar aos amigos. Em outras palavras, ele é da mesma época da maioria dos diretores das grandes gravadoras e tem exatamente as mesmas dificuldades para entender a nova realidade de distribuição digital. Eu não o culpo: é difícil para quem não está convivendo com isso desde sempre. Quem baixa músicas em geral gosta das bandas ou quer conhecer o som delas, não existe uma vontade de sacanear os artistas. O problema é toda a massa de gente incompetente que fica no meio do caminho entre os artistas e o público e dificulta uma relação mais direta e lucrativa para ambos os lados.
Notas pintoras de rodapé:
* Sim, muitos contratos recentes são menos prejudiciais aos artistas, mas isso já é reflexo de uma nova realidade onde gravadoras são dispensáveis. ** Os modelos atuais de assinatura mensal geralmente impõem ainda mais restrições aos arquivos, como datas de validade, impossibilidade de cópias para outros computadores e incompatibilidade com grande parte dos MP3 players existentes.
Tue 06 | Nov/2007 | Tags: Blog, Português, drm
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06/Nov/2007 at 11:43 pm
excelente texto, irmao. uma coisa apenas não consigo entender.. PQ O IMBECIL DO JAMARI FRANÇA SEMPRE SE METE A FALAR SOBRE COISAS QUE NÃO ENTENDE? Se alguem na diretoria do O GLOBO gosta dele… deveriam empalhar e por na sala ou jogar num vidro de formol ! Francamente esse cara é um merda… vive nos anos 70 e chupando as bolas dos miguxos dos anos 80 que encheram o rabo dele de dinheiro e cocaina… a tal geraçao BR ROCK… e lá se vão 20 e tantos anos… é por causa desse merda (entre outros) que em 2007 (quase fim de uma década) a massa ainda não está no século 21… É preciso varrer do mundo essa imprensa merda que não soma (pelo contrário – TEME O NOVO)
abç jenner
07/Nov/2007 at 9:09 am
MUITO BOM! Adoraria que textos como esse chegassem nas mãos certas. E que estas tivessem a habilidade de entender o que está falando. Infelizmente o povo-lento-que-precisa-de-frases-curtas-com-letras-grandes deve parar de ler no primeiro parágrafo. Provavelmente imaginando que o mundo todo está errado e você é só mais um a tentar apontar para outra direção.
07/Nov/2007 at 6:47 pm
Muito bom!
Eu sou cliente há tempos do http://www.emusic.com justamente por causa disso. Downloads em MP3, sem DRM e baratos (mesmo em dólar). Uma pena a eMusic não ter mais divulgação..
07/Nov/2007 at 7:16 pm
Sensacional! Uma das melhores denúncias do óbvio que já tive a oportunidade de ler. Se desse pra esfregar esse texto na cara de quem deve ler seria ótimo!
Parabéns!
07/Nov/2007 at 7:41 pm
Acabo de me tornar mais um dos leitores assíduos do seu blog depois deste texto. Nenhuma idéia nova, para mim ao menos, mas muito bem estruturado. E se esses dinossauros se tocassem da eminente extinção também assinariam seu feed (mais aí seria novidade demais para eles).
07/Nov/2007 at 8:45 pm
Totalmente endossado.
08/Nov/2007 at 9:33 am
Eu não sou muito de comentar posts, mas apóio sua candidatura ao cargo na Diretoria Estratégica e sede da Copa do Mundo de 2018. :)
08/Nov/2007 at 10:34 am
seu texto elucida coerentemente a realididade agradável para nós internautas fãs de música… acho que a independência pode salvar a arte que sempre teve a liberdade como um de seus pontos de partida. o radiohead escolheu um bom caminho pois através da sua obra falou em seus números o que realmente esta acontecendo e as gravadoras estão fechando os olhos.. pouco importa se as pessoas nao pagam pelo seu cd mas os shows , as idéias surgidas de uma boa música e até mesmo um novo fã é que provocam o crescimento de um artista e de uma comunidade em torno de uma idéia bem elaborada como as do radiohead…
09/Nov/2007 at 5:33 am
“ele deve pagar sim, mas porque gosta do produto”
Eu acho que as pessoas só vão pagar no momento em que o download pago for mais atrativo que o gratuito. Várias coisas podem contribuir para isso: melhor qualidade,acesso a conteúdo exclusivo, arte do album, prêmios, etc
No meu caso, baixei o In Rainbows por torrent simplesmente porque era mais prático que pelo site, e porque em geral consigo velocidades maiores.
13/Nov/2007 at 8:25 am
MUITO BOM!
Parabéns, já virou referência e sempre que surgirem discussões sobre esse tema vou indicar seu artigo, destrinchou MUITO bem o tema.
E nem falou tanto assim do Radiohead, que eu não gosto do som, mas admiro a estratégia de distribuição das músicas.
Segue firme! E manda notícias sobre o Concerto com Harpa e Notebook!
17/Dec/2007 at 5:53 pm
Certíssimo, F! Mas eu acho que essa idéia do público “consumidor” (éééééca! odeio essa palavra – já percebeu como rebaixa a condição humana?) ter que pagar também tem que cair. Afinal, música é cultura e isto deveria ser um bem de livre circulação. Tá, e aí, como ficam os artistas? É indiscutível que estes devam ser remunerados por seu trabalho (ou mesmo por seu ócio criativo), mas a maneira como isso de dá deveria ser repensada. Gosto da idéia de sites como o jamendo.com, que dividem o resultado de anúncios de terceiros com os artistas que através dali compartilham sua música. Dessa maneira quem banca o trabalho dos artistas é quem ganha dinheiro através deles, nada mais justo… Mas não pode ser só assim. Sabe pq? A arte do cara pode ser de extrema importância para a sociedade mesmo que não seja bem-vinda naquele momento. Já pensou se o Van Gogh fosse músico no século XX ou XXI? A gente telvez não ia poder ter acesso à obra dele, tendo ficado tudo perdido em arquivos não compartilhados por falta de interesse… talvez em pouco tempo a tecnologia do suporte utilizado poderia obsolescer e… babau, van gogh… ufa, ainda bem que ele usou telas pra se expressar! Bem, estou só fazendo aqui uma provocação básica, tb não tenho as respostas… Mas acho o jamendo muito legal… e o som do Gerador Zero tb… hehehe Abs
22/Dec/2007 at 4:11 pm
Ótimo texto, FZero. Resumiu essa história toda.
03/Feb/2008 at 6:35 pm
Cara, quer ver um modelo de distribuição de músicas decente, que dá muito certo, simples e bom tanto pro artista quanto pros fâs? Vai pro Norte do Brasil, e olha como que as bandas de lá (Calcinha Preta, Calypso, outras) distribuem seus materiais. Prensam tudo eles mesmos, distribuem as músicas ANTES de sair para alguns piratas (estilo Uruguaiana) pra tocar e o povo gostar, daí lançam o CD, e vendem na alta da música! Não precisa de mais nada, e os artistas e o público estão muito felizes, olha quanto que essas bandas “new-brega” do Norte estão fazendo de dindim. E as gravadores? A solução das gravadoras é morrer, e ponto.
05/Mar/2008 at 11:23 pm
[...] que os centavos que artistas se acostumaram a receber de gravadoras – preciso apurar melhor, mas 10% parece ser um número recorrente, ainda que existam [...]
06/Jun/2008 at 12:39 am
Magnífico este texto. Acho que todo este processo está apenas em faze de amadurecimento. Sim, o que o Radiohead fez não deixa de ser um estágio da Internet neste setor.
Só queria que o pessoal se lembrasse de uma coisa: Em muitos dos casos, existe um ser divino, que ao contrário do artista, não tem outra fonte a não ser sua criatividade. O compositor é de uma importância indiscutível para a maioria dos artistas que penetram em vossas casas e, se não existe nenhuma compensação para ele, qual é o sentido em continuar escrevendo?
Não convém aqui citar o Radiohead porque como em todo o rock, os integrantes das bandas são autores de suas próprias obras. Mas este extra que ele obtêm de suas composições são também provenientes dos álbuns que os artistas vendem, portanto é uma motivação a mais para que todos continuem criando. A música não deve deixar de ser compensada, na minha opinião. O que deve mudar, sim, é o pensamento das pessoas envolvidas neste setor com relação à arrecadação por cada compra. Fora as estratégias de marketing, jabaculês, drogas financiadas, putas e tudo mais. Desculpem gente, mas o CD não custa caro porque tem de custar caro. Há muito mais sujeira debaixo do tapete do que vocês imaginam, e claro, a corda sempre arrebenta pro lado mais fraco.
Não sou admirador do som da Banda Calypso, mas também não sou idiota a ponto de não reconhecer a grandiosidade da inteligência de seus integrantes em promover sua música para o seu povo, ao preço que o público deles pode pagar. Outra coisa: Os artistas deveriam pensar no álbum como ele realmente deve ser, um tema, um conceito, uma idéia do lead-in até o lead-out do CD, e não um punhado de canções largadas em um longplay de 14 faixas ou mais, de onde só se aproveita uma ou duas canções. Um disco deve funcionar como um livro sonoro, que de uma forma mágica conta a história de seu povo; a minha história pessoal, a sua história pessoal. O problema é que na maioria dos casos, a música deixou de ser arte, há muito tempo. Não é qualquer disco que tem o apelo de um “Sgt. Peppers’ Lonely Hearts Club Band” dos Beatles, ou de um “The Wall”, do Pink Floyd. Aliás, por que os fãs destas bandas gostam tanto destes discos? Mero acaso? Acho que não! Como eu falei, álbum é um álbum, uma iddéia, do início ao fim. É como um musical da broadway. É uma história. Já um single é um single. É aquela música rápida, pela qual muitos estão buscando, já que é só isso que os artistas tem dado ao povo, desde anos.
Fé em Deus.
Edu Camargo, cantor, compositor e tecladista.
http://www.myspace.com/educamargos
10/Aug/2008 at 2:11 am
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20/Apr/2009 at 11:34 pm
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